REUNIÃO DEVOLUTIVA COM MULHERES ENTREVISTADAS NO CEARÁ

A rede criada em 2016 tem como marco inicial o Projeto de Pesquisa Mulheres na Agricultura Urbana e Periurbana (AUP): Alianças Estratégicas na Economia Social e Solidária no Nordeste do Brasil. O projeto é uma iniciativa lançada pela professora Andrea Martinez (Instituto de Estudos Feministas e Gênero, Universidade de Ottawa) em colaboração com a equipe de pesquisadores da Incubadora de Tecnologias Sociais da Universidade Federal de Pernambuco (Brasil), com suporte financeiro do Social Sciences and Humanities Research Council of Canada (2016-2019). A Rede tem como objetivo desenvolver conhecimento sobre a economia social e solidária (ESS) a partir de uma perspectiva feminista pós-colonial. Em particular, são explorados os resultados, as lições e os desafios das alianças estratégicas entre mulheres ativas em movimentos associativos da agricultura urbana e periurbana (AUP) no Nordeste do Brasil e outros membros da ESS a fim de promover cidadania inclusiva.

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A importância de integrar práticas intersecCionais nos movimentos associativos das mulheres

A interseccionalidade tornou-se uma característica fundamental do pensamento e prática feminista contemporânea. Cunhada por K.W. Crenshaw em 1989, este conceito refere-se à “visão crítica de que raça, classe, gênero, sexualidade, etnia, nação, capacidade e idade operam não como entidades unitárias, mutuamente exclusivas, mas como fenômenos de construção recíproca” (Hill Collins, 2015; 1). De acordo com essa perspetiva, os desequilíbrios de gênero são apenas um, entre vários fatores de opressão, como o classismo, o racismo, a homofobia, etc. Estes estão em jogo até mesmo nas associações de mulheres. A falta de compreensão das relações de poder entre as mulheres pode ser prejudicial para aqueles que estão na intersecção de vários sistemas de opressão.

De fato, os riscos são que, dentro de cada associação, os membros do grupo dominante ignorem suas posições privilegiadas, negligenciem a variedade de discriminação existente e sufoquem as vozes e demandas de certos segmentos de sua organização, a saber, mulheres marginalizadas. A compreensão das diferentes dinâmicas das relações de poder permite uma melhor articulação das reivindicações dos vários grupos de interesse. Portanto, essa análise é necessária para evitar a homogeneização das realidades das mulheres e, como resultado, para combater melhor as desigualdades com base interseccional das dimensões da identidade social.


O que as práticas intersecionais consistem?

Ao adicionar uma perspectiva que não é apenas centrada em questões de gênero, a interseccionalidade destaca a complexa combinação de opressão experimentada pelas pessoas. Mas em termos práticos, o que é considerado práticas interseccionais? Uma resposta possível é a aplicação de um processo mais participativo e democrático dentro da organização para melhor desmantelar a distribuição desigual de poder. Para tanto, a consolidação de redes de comunicação mais eficientes pode contribuir para uma melhor inclusão de diferentes pontos de vista, bem como um reequilíbrio das relações sociais por meio do compartilhamento de conhecimento, proporcionando um espaço mais sólido para combater as desigualdades sociais de gênero, mas também de raça, etnia, classe, idade, habilidade, orientação sexual, etc.


Uma exemplificação prática: A ação associativa de mulheres agricultoras urbanas e periurbanas no nordeste do Brasil

Os benefícios da implementação de práticas intersecionais nas organizações de movimentos sociais têm sido o tema central das oficinas de Recife e Fortaleza que aconteceram nos dias 13, 19 e 20 de junho de 2018. Nesses encontros foram reunidos representantes de diversos grupos e associações de diferentes origens sociais: líderes feministas, agricultoras urbanas e periurbanas, indígenas e quilombolas, membros da economia social e solidária, ONG de direitos humanos, etc. Depois de ter introduzido o conceito em si, os participantes foram convidados a discutir mais precisamente as práticas interseccionais e os benefícios de implementá-las dentro de suas próprias organizações. Os principais pontos levantados pelos participantes giraram em torno da importância do edifício da rede para criar ligações entre as organizações. De fato, foi mencionado que compartimentar os problemas traz a negação das situações específicas das mulheres, em particular aquelas que estão na intersecção dos sistemas de opressão. Assim, a associação dos grupos também tem a vantagem de alavancar as organizações para fazer lobby junto aos representantes das autoridades públicas nos níveis municipal, provincial e nacional. Também facilita o acesso a recursos financeiros e materiais. Finalmente, os representantes também discutiram a ideia de reunir grupos de origens diversas como meio de incentivar o compartilhamento de conhecimento e o treinamento continuado, bem como fomentar a participação cidadã por meio do compartilhamento de experiências pessoais. Em suma, todos concordaram com a importância de levar em conta a variedade de situações vivenciadas pelas mulheres e que esse entendimento possa favorecer uma melhor articulação das demandas dos grupos sociais.

Em conclusão, a adoção de práticas intersecionais dentro dos movimentos associativos das mulheres fornece uma maneira de questionar a homogeneidade percebida do grupo, desconstruindo os sistemas de opressão dos quais derivam as desigualdades sociais. Além de uma compreensão mais holística das diferenças e interações intra-grupo, sua aplicação promete devolver aos membros de grupos desprivilegiados suas vozes.


Hill Collins, P. (2015). Intersectionality’s Definitional Dilemmas. Annual Review of Sociology, 41, 1-20.

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