© 2023 por CGI Consultoria. 

REUNIÃO DEVOLUTIVA COM MULHERES ENTREVISTADAS NO CEARÁ

A rede criada em 2016 tem como marco inicial o Projeto de Pesquisa Mulheres na Agricultura Urbana e Periurbana (AUP): Alianças Estratégicas na Economia Social e Solidária no Nordeste do Brasil. O projeto é uma iniciativa lançada pela professora Andrea Martinez (Instituto de Estudos Feministas e Gênero, Universidade de Ottawa) em colaboração com a equipe de pesquisadores da Incubadora de Tecnologias Sociais da Universidade Federal de Pernambuco (Brasil), com suporte financeiro do Social Sciences and Humanities Research Council of Canada (2016-2019). A Rede tem como objetivo desenvolver conhecimento sobre a economia social e solidária (ESS) a partir de uma perspectiva feminista pós-colonial. Em particular, são explorados os resultados, as lições e os desafios das alianças estratégicas entre mulheres ativas em movimentos associativos da agricultura urbana e periurbana (AUP) no Nordeste do Brasil e outros membros da ESS a fim de promover cidadania inclusiva.

Buscar

A política e (des) esperanças de mulheres participantes da pesquisa internacional

“cooperativas femininas na agricultura urbana construídas na economia social e solidária no nordeste do Brasil”


A referida pesquisa atravessou períodos distintos na condução política do Brasil, a partir de mudanças na ocupação de cargo máximo do Poder Executivo. Dilma Vana Rousseff, Michel Elias Temer e Jair Messias Bolsonaro, através de visões de mundo e sociedade, foram responsáveis por tomadas de decisão quanto ao projeto de país pretendido, implementando políticas de impactos econômicos, sociais e culturais.

As populações mais vulnerabilizadas que sofrem pelo passivo histórico de oportunidades e visibilidade de suas necessidades, têm no atendimento Estatal depósito de esperança quanto à superação de problemáticas excludentes e garantias de vida mais digna.

A primeira eleição de uma mulher como presidente representava, em certa medida, a força de todas as mulheres para o desenvolvimento nacional e a possibilidade de ascensão a postos de poder e lugar de mais valoração à figura feminina na sociedade. O processo de impetcheament anunciava para as mulheres momento de instabilidade política e incertezas, que golpeava[1]projetos que tinham para si, seus familiares, comunitários e para seus pares na questão de gênero.

Afinal, a força política que comandava o Brasil em seu quarto mandato, voltou-se com mais sensibilidade ao povo pobre e sofrido pela desassistência de governos, sendo apontado como acertos a expansão da educação pública, o programa bolsa família, a construção de cisternas, de concessão de crédito facilitado para a aquisição de moradia e etc.

Nas visitas in loco às comunidades indígenas e assentadas em 2016, apontava-se para o prédio que acomodava as equipes de saúde da família como conquista da comunidade, embora sinalizem mais investimentos como oferta de ensino médio. Em 2019, ao assuntar nas histórias de vida as expectativas das mulheres com mais profundidade, obtivemos narrativas de pesar quanto aos anos vindouros, de retirada de direitos, de insegurança quanto à subsistência e futuro das pessoas mais próximas.

Os valores inclusive ressarcidos pelo seu tempo produtivo disponibilizado para a pesquisa parecia um alento mínimo e momentâneo para uma emergência financeira, sentimento também perceptível na primeira etapa de entrevista (esta parte fiquei em dúvida se deveríamos manter). Mas, também, como reagir diferente em meio a dificuldades de acesso e posse à terra, à água, à aposentadoria, a crédito, entre tantas outras questões que as afetam cotidiniamente?

Elas se deparam como reféns de inúmeras circunstâncias que as aprisionam num ciclo vicioso de desvantagens, impostos pelo cenário montado de impedimentos de ser mais, de se organizar, inclusive de ir à luta. Neste último ano constatamos o agravamento das estradas e vias de acesso às comunidades, que reforçam o isolamento de comunidades e distanciamento da realização de projetos de vida. A escola básica da comunidade quilombola Serra do Juá estava às vésperas de seu fechamento. Como deslocar-se para ir à escola com baixa renda, sem estradas qualificadas? Como doentes e idosos chegam em unidades de saúde?

A luta em prol da justiça social mencionada pelas participantes asseverou-se em muitas perdas, inclusive na instalação de medo pelo comprometimento nos movimentos sociais, que exigem demarcação firme de ideias e posicionamentos frente a medidas governamentais que causam retrocessos.

Diferentemente da primeira coleta de testemunhos, nesta última etapa de registros orais e de imagem, nos deparamos com negativas e temeridade na exposição de seus grupamentos, tendo em vista perseguições, ameaças de morte e intimidação de lideranças. Não havia recusa em conversar, compartilhar lutas, mas como havia a gravação de voz para a entrevista, apesar de todo esclarecimento na confiabilidade dos dados e anonimato, muitas convidadas preferiram não colaborar nesta frente de conhecimento, não naquele momento.

Vale ressaltar que junto a estas dificuldades, já não víamos o mesmo entusiasmo nos olhos de muitas mulheres, no vislumbre que o Brasil daria a virada social que ainda está em falta. Principalmente percebemos nas mulheres que não participavam assiduamente de movimentos sociais e fóruns mais consolidados de mobilização e levante de pautas.

As mulheres mais organizadas socialmente elencaram a resistência como única alternativa para manter políticas que consideram importantes e atravessarem este momento político de bastante desesperança quanto a ações de cunho popular, de defesa da vida, do meio ambiente e de garantia de direitos sociais duramente alcançados.

A esperança está na inserção de jovens e no desenvolvimento de estratégias integradoras de cada vez mais mulheres para superar o processo de exclusão, diante da reduzida representatividade de comunidades mais populares nos três poderes e esferas. Organizar-se a nível local, nacional e construir pontes internacionais, como instituída nesta pesquisa, são saídas encontradas pelas participantes, desprovidas de mecanismos e lógicas outras (como do mercado) para inserção.

Um status social mais reconhecido e empregos mais qualificados não seriam barreiras para o ativismo e articulação em rede, segundo mulheres representantes de entidades melhor situadas na crítica social, quando o principal elo unitário é uma sociedade mais igualitária, como um cordão de forças para vencer os abismos quase que intransponíveis entre os sujeitos das políticas públicas, o Estado e a própria política. Afinal, a política, muitas vezes e erroneamente, verticaliza-se de forma autoritária, como se o povo fosse totalmente desprovido de capital imaterial, de conteúdo, de cultura e de leitura da realidade e permanecessem passivos à ordem imposta pelos altos mandatários.

Na literatura, encontramos discussões sobre momento histórico que nos leva a refletir se a estrutura social, administrativa e produtiva da sociedade de hoje é um fenômeno completamente independente e autônomo da realidade que nos é anterior. Será que ainda é coerente com as necessidades e aspirações desde as primeiras fases do período colonial brasileiro, apesar dos desconfortos destas constatações?

Ao olhar para trás ou o agora, é como se o real desigual existisse porque tem condições para sê-lo, onde pessoas, práticas e instituições se retroalimentassem mutuamente na marginalização do outro, entre estabelecidos e outsiders: a derrota de degredados e o sucesso dos privilegiados.

Neste sentido, tornam-se compreensíveis mas inertes, os traços explicativos da história pelos recorrentes momentos de exclusão da ampla maioria do povo, como resultado de múltiplas determinações que sofre, “no âmbito das relações sociais, a interferência das forças políticas, ideológicas e culturais (ZOTTI, 2009)”.

A aprendizagem que nos exigem e advêm destes achados de pesquisa indicam que as transformações provenientes da luta política não se materializam de iniciativa solitária ou de um ato individualizado, mas de experiências coletivas, de muitas gerações, que nos colocam condicionantes para refletir sobre a realidade e ultrapassá-la.

"A transmissão de conhecimento por meio de símbolos sociais permite a gerações posteriores edificar sobre os conhecimentos de gerações anteriores, revisá-los e ampliá-los. O crescimento intergeracional do conhecimento é, como a comunicação linguística, exclusivamente humano (ELIAS, 1994, p. 152)"

A necessidade social de dar a conhecer (VEIGA, 2012) é própria da condição humana, pede partilha de conhecimento e, principalmente, que não há limites absolutos e invencíveis às investidas humanas. É preciso lutar, juntar pessoas, investir na formação política de mais e novos quadros, já que o contexto avizinhado é inclusive de iniciativas que envolvem liberação de armas de fogos, mudanças em demarcações de terra, fechamento de conselhos com representação da sociedade civil e maior circulação de agrotóxicos.

O recente derramamento de petróleo no litoral nordestino e as crescentes queimadas na Amazônia nos indicam o tamanho dos desafios das populações mais periféricas para sobreviver, de maneira solidária e economicamente criativa, sem degradação ao meio ambiente(fiquei em dúvida acerca destas questões mais recentes).

Assim, como as testemunhas desta pesquisa, precisamos nos inquietar com o estágio de nossa civilização, somando nas suas lutas por justiça porque os problemas em pequena escala e de um país como um todo são inseparáveis, nas tentativas para correção de desigualdades. “Não faz muito sentido estudar fenômenos comunitários como se eles ocorressem num vazio sociológico” (ELIAS; SCOTSON, 2000, p. 16), sem solução ou como se tratassem de um estudo de caso particular, de esperanças ou de desesperanças.

O retrato da problemática social do país pode ser visualizado em diversos setores. As diferenças de oportunidade são retrato do mundo desigual que vivemos e que tantas gerações por ele já passaram, demonstrando nossa incapacidade de solucionar os principais males que extrapolam o ímpeto deste tempo e das sociedades porque, para tanto, precisamos da política, da verdadeira política.

Política que é exercida por todos, não dos governantes para os governados. Com participação e controle social, assentada na liberdade e no desejo de participar. Política não como sinônimo de violência ou impotência, mas mutuamente garantida, longe da dominação de uns contra outros, como ensina Hannah Arendt. A verdadeira política como condição humana e proveniente de ação plural é o que nos deixa cada mulher participante, que não evocava interesses mesquinhos e exclusivos de suas casas nas narrativas, evadindo-se para a inarticulação.


[1]Não foi rara a compreensão de golpe quanto ao processo de cassação de seu mandato por parte do quadro de entrevistadas.

0 visualização

Realização

Colaboração

Apoio financeiro