REUNIÃO DEVOLUTIVA COM MULHERES ENTREVISTADAS NO CEARÁ

A rede criada em 2016 tem como marco inicial o Projeto de Pesquisa Mulheres na Agricultura Urbana e Periurbana (AUP): Alianças Estratégicas na Economia Social e Solidária no Nordeste do Brasil. O projeto é uma iniciativa lançada pela professora Andrea Martinez (Instituto de Estudos Feministas e Gênero, Universidade de Ottawa) em colaboração com a equipe de pesquisadores da Incubadora de Tecnologias Sociais da Universidade Federal de Pernambuco (Brasil), com suporte financeiro do Social Sciences and Humanities Research Council of Canada (2016-2019). A Rede tem como objetivo desenvolver conhecimento sobre a economia social e solidária (ESS) a partir de uma perspectiva feminista pós-colonial. Em particular, são explorados os resultados, as lições e os desafios das alianças estratégicas entre mulheres ativas em movimentos associativos da agricultura urbana e periurbana (AUP) no Nordeste do Brasil e outros membros da ESS a fim de promover cidadania inclusiva.

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Individualismo utilitarista: desafios para o empoderamento feminino na agricultura urbana e periurba

O empoderamento feminino representa um meio civilizatório indispensável para redução das injustiças sociais, o que em princípios teóricos se aproxima com os conceitos de economia social e solidária (ESS), e em contraposição ao individualismo utilitarista neoliberal. Os grupos/associações e outros agentes da ESS embora possuam valores distintos, estão sujeitos a absorverem e reproduzirem os valores dominantes. Assim, práticas que dialogam com o feminismo presentes nas associações e grupos solidários de mulheres na agricultura urbana e periurbana (AUP) são promissoras para o empoderamento feminino e o ativismo social. Este artigo apresenta algumas observações sobre práticas da ESS sob a ótica do individualismo utilitarista neoliberal, que possam refletir em conhecimentos para o empoderamento feminino (EF)na AUP. Os desafios ao EF são apresentados com base em práticas individualistas observadas nas pessoas, grupos e instituições envolvidas com grupos solidários de mulheres na AUP. Na análise, não foi observada nenhuma participação de mulheres na AUP nos processos de formulação de políticas públicas para mulheres, bem como desconhecimento de suas reivindicações pelas autoridades públicas. Os resultados demonstram ainda que representações sociais de mecanismos de exploração foram observadas nas práticas de alguns grupos/associações na AUP, dentre elas, as hierarquias de poder e a divisão injusta de trabalho por gênero. Algumas mulheres também relataram dificuldade para estabelecer alianças estratégicas entre si, e com outras representações da ESS, que pode demonstrar em certa medida uma individualização das identidades, ideologias e práticas de alguns grupos de mulheres, principalmente, entre as mulheres analfabetas e de baixa escolaridade, desta forma a alfabetização e escolarização destas mulheres é indiscutivelmente um dos mecanismos que precisam ser aperfeiçoados para uma verdadeira transformação social, processo que deve ser contínuo e pautado na igualdade de gênero e no combate à todas as forma de opressão, inclusive de combate a manipulação da natureza e degradação do meio ambiente.Embora tenha havido um maior interesse das universidades e centros de pesquisa na compreensão das práticas da ESS, alguns grupos de mulheres relataram práticas de pesquisadores que corroboram às críticas às tensões da academia neoliberal, que permanecem presos a uma estrutura profundamente individualista afastados da coletividade. Assim, embora osespaços da ESS favoreçam a criação de novas ferramentas para o empoderamento feminino na AUP, ainda existem desafios representados pelo individualismo utilitarista neoliberal em contraposição aos ideais da solidariedade. Desta forma este artigo apresenta algumas recomendações para que o individualismo não deturpe as identidade da ESS, e que favoreça a igualdade de gênero através de ações voltadas para mulheres na AUP e ao ativismo social.


Palavras-chave: igualdade de gênero, economia feminista, hierarquias de poder, divisão justa do trabalho, alianças estratégicas, tensões da academia neoliberal.


Economia Social e Solidária

Os espaços da ESS no Brasil possuem um longo histórico de relações sociais e econômicas de resistência anti-globalizante, embora inserido no sistema hegemônico, a ESS sempre priorizou o respeito humano nas relações econômicas, e contrários à qualquer forma de discriminação. Assim, possui princípios que poderão permitir umaparticipação feminina de maneira mais inclusiva do que a que ocorre habitualmente.

Observadores internacionais reconhecem que os princípios da economia social e solidária (ESS) são atravessados por questões de gênero. As práticas da ESS abrangemcontraposições com os mecanismos heteropatriarcais etnocêntricos, sobretudoem relação à assimetria de poder entre mulheres e homens na sociedade.

Gaiger, 2009; Laville e Gaiger, 2009, acrescentam ao conceito de ESS a solidariedade em contraposição ao individualismo utilitarista.

Por ser contrário a discriminação, a ESS, favorece o debate de gênero, com potencial para que seja realmente transformador da sociedade.

Os espaços da ESS não estão protegidos de descaracterizar as suas identidades e reproduzirem valores dominantes capitalistas, heteropatriarcais e etnicamente estruturados.


Individualismo utilitarista

O individualismo, na perspectiva oposta a coletividade da ESS, converge à teoria utilitarista concebida Bentham e Mill, que partiu do conceito de utilidade baseado inicialmente na felicidade ou prazer (sinônimos para estes autores). O utilitarismo possui três aspectos intrínsecos: consequencialismo (correto ou errado, moral ou imoral a partir de suas consequências), bem estar comum (qualidade de vida baseada nas preferências pessoais do indivíduo) e o agregacionismo (maior bem estar para o menor número de pessoas) e assim haveria maior maximização do bem-estar social que em sua perspectiva é representado pela somatização do bem-estar individual (comum) das pessoas.

Muitos críticos trazem como questionamentos, ao bem estar comum, sobre a necessidade de que todas as preferências pessoais devam ser consideradas para se alcançar o bem-estar social. Por outro lado, a crítica ao agregacionismo contra-argumenta que a própria distribuição igualitária dos recursos disponíveis e representa uma garantia ao bem-estar social.


Relatos de mulheres na agricultura urbana e periurbana

Embora os relatos reforcem a ideia de que os espaços na ESS são promissores para o empoderamento feminino e o ativismo social, a partir dos relatos de mulheres em grupos de discussão, é possível também identificar mecanismos de exploração que ainda são reproduzidos nestes espaços:

1 - Mulheres relatam que em suas comunidades, alguns grupos são beneficiados em detrimento de outros, refletido diretamente pelas hierarquias de poderestabelecidas em nível local. Em tempo, algumas conquistas, como a subvenção econômica à aquisição de insumos (máquinas, equipamentos de produção) por vezes beneficiam poucos em detrimento de outros grupos ou mulheres que trabalham individualmente na mesma comunidade.

2 - O exercício da divisão justa do trabalho nas cooperativas/ grupos /associações ainda não reflete em um modificação nas práticas dominantes de direcionar todos os trabalhos domésticos às mulheres. A jornada tripla de trabalho na agricultura, nos trabalhos domésticos e no cuidado a família, não permite a retomar os estudos ou buscar aperfeiçoamento de seu trabalho. Ao assumir uma nova atividade econômica, também não há nenhuma redução na carga de trabalhos domésticos e relacionados ao cuidar da família destinados às mulheres.

3 - É possível identificar em mulheres ou grupos de uma mesma localidade que desenvolvem suas atividades econômicas de maneira individualizada, ausência de alianças estratégicas, nem mesmo em nível local, reforçando mecanismos de competitividade econômica.

4 - As universidades e centros de pesquisa também são mencionados por sua aproximação aos grupos de mulheres na AUP para coleta de dados para pesquisa, e que estes freqüentemente não retornam aos grupos para devolutiva dos resultados, demonstrando pouca/nenhuma preocupação com a transformação da realidade das mulheres participantes da pesquisa. Esta objetificação dos sujeitos da pesquisa agrava as atuais críticas às tensões na academia neoliberal.

5 - Algumas lideranças das mulheres que também pertencem a classes econômicas inferiores e, por vezes, percebem na liderança um caminho mais rápido para atender aos seus interesses pessoais, mesmo que em algumas situações seja necessário agir em detrimento dos interesses coletivos.


Barreiras para emancipação feminina nos espaços da ESS

Osório-Cabrera (2016) apresenta algumas críticas do movimento feminista à economia social e solidária pela reprodução de vieses androcêntricos nos olhares da economia, embora sejam reconhecidas as possibilidades de diálogo entre as duas vertentes para desenvolver relações sociais transformadoras. Os espaços da ESS favorecem a criação de novas ferramentas para o empoderamento feminino na agricultura urbana e periurbana, embora este objetivo e público não sejam considerados especificamente em nenhuma política pública no Brasil.

Os relatos das mulheres associadas/cooperadas puderam ser corroborados por uma discussão num Conselho Estadual de Políticas para Mulheres, que reconhecia total desconhecimento das demandas das mulheres na agricultura urbana e periurbana. Em tempo, quando questionadas, representantes do Conselho remetiam suas sugestões à agricultura rural, que historicamente já possui respaldo de políticas públicas, inclusive com relevante produção acadêmica.

Por outro lado, algumas hierarquias de poder também podem ser reproduzidas na ESS, como exemplo quandomulheres pobres, embora frequentemente encontram na ESS um caminho para sua emancipação, por vezes, acabam por reproduzir muitos mecanismos de sua própria exploração ao priorizar suas conquistas pessoais em detrimento dos interesses coletivos.

O atual interesse das universidades e centros de pesquisa sobre a economia social e solidária é um fator aparentemente benéfico numa análise superficial, embora na prática traga consigo alguns aspectos da experiência subjetiva do trabalho acadêmico contemporâneo, que permanecem presos a uma estrutura profundamente individualista afastada da política coletiva para oferecer um conjunto de ferramentas individualizadas para enfrentar as tensões da academia neoliberal.

As chamadas “lesões ocultas da academia” (Gill, 2010), prejudicam a maioria das pessoas, agravadospor padrões mais específicos de desigualdade e injustiça (gênero, idade, classe e outras divisões sociais).

Em tempo, podem ser encontradas pesquisas científicas que tiveram como sujeitos os grupos que incluem mulheres agricultoras em áreas urbanas e periurbanas, mas que objetivamente não trouxeram benefício algum às mulheres pesquisadas. As mulheres relatam que em alguns casos não houve nenhuma compreensão sobre a forma de utilização dos dados. Desta forma é possível perceber que as tensões da academia neoliberal não podem ser trazidas para os espaços da ESS, evitando também consequente desconfiança da sociedade em relação às universidades.

Para o empoderamento feminino da sociedade se faz necessário um conjunto de mudanças na organização do cotidiano, modificando valores e atitudes utilitaristas na sociedade frente aos atuais desafios econômicos, sociais e ambientais.

Problemas universais também atravessam barreiras ao empoderamento de mulheres na AUP, reforçando que suas práticas cotidianas exercitem de maneira contínua o respeito ao meio ambiente, a moderação do consumo, o cuidado no endividamento, o uso eficiente dos transportes, a generalização da reciclagem e a redução do desperdícios.

O combate a violência às mulheres e a necessidade de se garantir seus direitos sexuais e reprodutivos são temas transversais a todos os debates de feminismo e gênero no Brasil, que exige urgência na renovação e estímulo ao ativismo social.

A dimensão macroeconômica e macrossocial da solução dos problemas é essencial, e envolve tanto a formulação de políticas públicas acessíveis, quanto a participação ativa dos meios de comunicação.


Recomendações

A partir dos relatos de mulheres na AUP e observações de grupos associativos foram elaboradas algumas recomendações para refletir sobre práticas da economia social e solidária:

1- Horizontalizar as decisões: as atividades de autogestão promovidas nos espaços da economia social e solidária, podem promover práticas com maior equilíbrio de poder nos espaços decisórios. A academia sobretudo no âmbito da extensão universitária tem desenvolvido metodologias que são aplicadas em oficinas nos espaços da ESS que podem ser oferecidos para mulheres que atuam na AUP através de cursos, oficinas nas comunidades para consensualização dos processos decisórios.

Neste sentido os espaços da ESS com destaque para ações das Incubadoras de Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs) possuem metodologias para o exercício da horizontalidade e apoio mútuo que caracterizam a economia social e solidária.

No Brasil, sobretudo, estas metodologias para exercício da autogestão foram desenvolvidos e aplicados como êxito para assessorar grupos de catadores de materiais recicláveis, tais metodologias têm sido adaptadas ao exercício da autogestão em grupos de mulheres e homens agricultura rural. Desta forma, pode ser adaptado e aplicado aos grupos de mulheres na AUP.

2- Superar a invisibilidade do trabalho ligado ao cuidar na AUP: para este desafio a sensibilização deve ser contínua nos espaços da ESS, nas escolas, hospitais e outros serviços públicos, utilizando uma multiplicidade de recursos disponíveis, dentre eles os materiais educativos e sensibilizadores, videoaulas, documentários e redes sociais.

O estímulo a realização de debates promovidos pelos movimentos feministas, com destaque ao ecofeminismo representado, entre outras, pela pesquisadora ativista Vandana Shiva, pela sua aproximação ao movimento de combate à todas as formas de opressão, manipulação da natureza e a degradação do meio-ambiente também presente nas lutas das mulheres na AUP. A economia feminista também tem um papel excepcional para que a sociedade possa compreender o valor do trabalho do "cuidar" atribuído socialmente às mulheres, a desvalorização e invisibilidade da importância de suas atividades dentro do modelo hegemônico heteropatriarcal etonocêntrico.

É necessário discutir que a responsabilidade do cuidar atribuída historicamente às mulheres é fruto de uma construção social, da materialização de crenças psicológicas opresssoras de atribuir às mulheres a conta pelo bem estar social, sem o devido mérito, crenças que devem ser freadas e repensadas pelas sociedades.

3 - Induzir alianças estratégicas entre as mulheres na AUP: as práticas realizadas em espaços da ESS podem incluir oficinas de reconhecimento de identidades em comum na comunidade com potencial para estimular alianças estratégicas entre mulheres de uma mesma localidade, bem como outros integrantes da ESS. As mulheres na AUP necessitam de estímulos para se conectar aos movimentos nacionais e internacionais de luta das mulheres, incluindo movimentos de luta pela terra, moradia, justiça e outros direitos humanos necessários ao seu empoderamento.

Os programas de alfabetização e escolarização de adultos precisam motivar e sensibilizar a comunidade para os problemas enfrentados pelas mulheres na AUP. Quando estas decidem retomar os estudos ainda enfrentam muitas dificuldades, pois cumprem jornada tripla de trabalho na agricultura, nos trabalhos domésticos e no cuidado a família. Assim, as mulheres na AUP embora residam relativamente próximas aos grandes centros urbanos, enfrentam a total falta de tempo para retomar os estudos, agravada pela ausência de transporte público eficiente nos grandes centros urbanos. A alfabetização e escolarização destas mulheres é indiscutivelmente um dos mecanismos que precisam ser aperfeiçoados para uma verdadeira transformação social, processo que deve ser contínuo e pautado na igualdade de gênero e no combate à todos as forma de opressão, inclusive de combate a manipulação da natureza e degradação do meio-ambiente. As escolas tem um papel essencial na luta feminista pelo potencial para estimular o reconhecimento das mulheres como protagonistas do bem-estar social.

4- Incentivar pesquisas acadêmicas que envolvam mulheres na AUP para uma verdadeira transformação das relações sociais: as universidades e centros de pesquisa devem ter a preocupação de devolver às mulheres e homens investigados em suas pesquisas, seus resultados, e incluir os grupos de mulheres pesquisadas na discussão dos resultados das pesquisas que as envolveu. Os acadêmicos devem se predispor a uma observação atenta às críticas à academia neoliberal, e se aproximar de modelos que priorize o ser humano em detrimento da produtividade baseada no individualismo. A academia deve se abrir a reflexão a respeito de seus mecanismos de reprodução de valores hegemônicos exploratórios. Os comitês de ética em pesquisa com seres humanos precisam adotar uma postura mais combativa com a reprodução de valores de exploração sobre mulheres e homens pesquisados.

5 - Superar o individualismo e valorizar as coletividades entre mulheres na AUP: utilizar tecnologias que permitam exercício de conscientização para coletividade, assistência técnica e aproximação entre as mulheres da comunidade. Algumas destas tecnologias/metodologias estão disponíveis por redes de economia solidária e tecnologias sociais; e necessitam ser explorados em espaços de formação. É de suma importância a necessidade contínua de se engajar politicamente com os movimentos feministas, que é uma das soluções transversais a todos os desafios apresentados ao empoderamento das mulheres na AUP.

O movimento feminista e o movimento econômico social e solidário têm objetivos comuns e devem trabalhar conjuntamente na construção de alternativas para uma verdadeira revolução social.

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